IV Reunião Clínica Anual da UCARDIO

IV Reunião Clínica Anual da UCARDIO

Em entrevista ao perspetivas, o Dr. Jorge Guardado, presidente da comissão organizadora, lança o mote da IV Reunião Clínica Anual da UCARDIO, que decorre nos dias 25 e 26 de outubro, em Torres Novas.

Perspetivas (P): Este ano, a Reunião Clínica será subordinada ao tema “Explorando as Fronteiras da Cardiologia”. Que elementos justificaram a escolha deste mote? E qual a importância de se sintonizar esta especialidade com outras áreas da Medicina?

Jorge Guardado (JG): Desde a segunda edição que lançámos sempre um atributo que caracterizasse da melhor forma cada Reunião. Já passamos pelos Lemas “Cardiologia Verde” em 2017 e na edição de 2018, por “Cálice Sagrado da Cardiologia”. Agora, seguimos para testar e conquistar os limites da Cardiologia enquanto especialidade ao entrarmos em linhas que são classicamente disputadas por outras especialidades, por exemplo pela Pediatria, onde iremos ter duas magníficas conferências sobre aplicabilidade da Ecocardiografia de Esforço e o seu Consentimento Informado em idades juvenis.

A Cardiologia é uma área da Medicina Interna que atualmente se relaciona com outras especialidades, algumas destas improváveis, quando nasceu no século passado. O atual processo diagnóstico por multimodalidade de imagem e a Intervenção Cardiovascular Percutânea (tratamentos por Cateterismo Cardíaco, Ex. Angioplastia Coronária) ampliou as fronteiras da Cardiologia e modificou fortemente a relação que hoje existe com as restantes especialidades. Se do ponto de vista Clínico mantemos especial relação com os Cuidados Primários de Saúde no ambulatório e com a Medicina Interna nos Serviços de Urgência Hospitalares, já quando falamos em estratégias mais específicas de diagnóstico, estratificação de risco e tratamento dos doentes entra-mos facilmente nos campos da Radiologia, Cirurgia Cardíaca, Pneumologia, Neurologia, Cirurgia Vascular, Medicina Nuclear, entre outras.

P: Uma leitura do Programa permite notar, desde logo, a presença de um leque bastante heterogéneo de convidados/intervenientes. Como poderemos caracterizar este mesmo painel e as expectativas por ele proporcionadas?

JG: É de facto uma característica que nos distingue de outras Reuniões de Cardiologia. Tratam-se de Jornadas efetuadas para um público também ele com bastante diversidade e por isso a necessitar que os temas abordados sejam do maior espectro e interesse. Para mais na UCARDIO a Cardiologia é rainha mas a Unidade tem na sua oferta outras Especialidades compostas por um excelente e prestigiado Corpo Clínico. Para nós faz sentido que se conjuguem todos estes ingredientes num programa que seja atrativo para todos os participantes.

P: Falando, mais concretamente, sobre as temáticas que serão levadas a debate e reflexão: quais são, no entender da organização, os temas mais relevantes do Programa e que fatores motivaram a escolha desses tópicos?

JG: Desde logo, no primeiro dia da Reunião, 25 de outubro, destacamos as Oficinas de Trabalho onde preenchemos um leque bastante interessante e atrativo na área cardiovascular e respiratória, dedicada especialmente aos Médicos de Família e Internistas. No âmbito da Sessão da Abertura Oficial, uma conferência, resultado da investigação original em que a UCARDIO esteve envolvida, base de uma Tese de Doutoramento, que aborda o Consentimento Informado para atos médicos em idades pediátricas. Este estudo incluiu cerca de 100 crianças que foram submetidas a Ecocardiografia de Esforço na UCARDIO.

No sábado, dia 26 de outubro irá estar na Ordem do Dia o Bloco de Cardiologia, onde passaremos em revista o estado atual da arte na insuficiência cardíaca, fibrilhação auricular e potencialidades da cardiologia invasiva para além do tratamento da doença coronária. Para além da Cardiologia, abordaremos nesta edição duas temáticas diferentes: A Insuficiência Renal e a Hiperhidrose, um tema “tabu” para muitos doentes que ficam perdidos durante anos em sofrimento interior, muitos dos quais nunca serão tratados adequadamente por falta de informação adequada sobre o diagnóstico e tratamento adequado.

Pelo meio, a Conferência habitual sobre Ecocardiografia de Esforço, a “pedra angular” na estratégia de avaliação cardíaca na UCARDIO. Falar-se-á sobre a aplicação deste método em idades pediátricas. Será um dos pontos mais altos do programa, tal como a Conferência final do programa da manhã que abordará a norma, variação e paradoxo do desejo masculino, um título que à partida nada faria pensar poder fazer parte de uma Reunião de Cardiologia.

Não podemos deixar de frisar, na parte da tarde, a entrada no território legal, ético e de responsabilidade do ato médico e medicinas alternativas, outra das surpresas na diversidade e interesse do conteúdo temático.

Finalmente, a Sessão de Casos Clínicos. Este ano, pela primeira vez atribuiremos um prémio à melhor apresentação.

P: Fazendo eco ao tema do Bloco 1, “Cardiologia – o que está na ordem do dia?”, aproveitávamos para lhe perguntar sobre o atual estado desta especialidade em Portugal. Que desafios se colocam, atualmente, aos seus profissionais?

JG: É uma especialidade com importante relevância pela sua posição central na prevenção, diagnóstico e tratamento das doenças cardiovasculares, principal causa de morbilidade e mortalidade no nosso país, na sociedade ocidental e nos países denominados “desenvolvidos”. É neste cenário que se encontra o maior desafio da Cardiologia: promover a redução da incidência, melhorar a qualidade de vida e reduzir o impacto sobre prognóstico vital das doenças cardiovasculares. Para esta tarefa dispomos de um excelente nível de profissionais com graus de diferenciação e especialização adequadas. Aqui surge outro importante desafio para os profissionais de cardiologia: estar em sintonia com a evolução constante desta especialidade.

P: O primeiro dia do evento será marcado pela realização – numa iniciativa inédita – do I Curso de Cardiologia Avançada. A quem se destina este momento formativo e que tipo de conteúdos serão lecionados?

JG: Esta é uma das grandes novidades no formato da Reunião desta IV edição. Optamos por dar início a um Curso específico e prático na área da Cardiologia de forma a trazer até nós a comunidade de Cardiologia a nível nacional, sobretudo Internos e Jovens especialistas. Escolhemos um Tema de Cardiologia de Intervenção, a simulação e treino médico em modelos não humanos para a primeira edição deste Curso.

O SimulHeart, desenvolvido por cardiologistas que fazem parte da equipa da UCARDIO, consiste num simulador de alta fidelidade de Angioplastia Coronária, em modelo flexível, através do recurso a impressão 3D de anatomias de doentes reais. Este curso prático é dirigido a Internos e Especialistas de Cardiologia com especial interesse na área de Cardiologia de Intervenção. Tem como objetivo a realização de técnicas de intervenção coronária por cateterismo de complexidade crescente. Para tal, após a apresentação inicial, os participantes vão planear o procedimento com o auxílio de um operador experiente, executar no modelo seguido de discussão clínica e avaliação do resultado final.

P: Ao longo dos dias da IV Reunião Clínica, haverá ainda espaço para oficinas de trabalho, bem como para um Curso para Técnicos de Cardiopneumologia. Qual a importância de se desenvolver este tipo de iniciativas?

JG: Os Técnicos de Cardiopneumologia são uma parte muito importante do trabalho diário do Cardiologista. São o apoio e muitas vezes o “braço direito” do Cardiologista no diagnóstico através de uma vasta gama de Exames Complementares não invasivos e procedimentos de diagnóstico e intervenção por cateterismo. Já anteriormente tínhamos projetado a inclusão deste grupo profissional na nossa Reunião. Acontece agora na IV edição e será para manter no futuro. Eles são parte integrante e ativa das equipas de Cardiologia e não faz sentido não promover também ações de formação pós-graduada com este grupo.

P: Um elemento indissociável desta Reunião Clínica será a apresentação de casos clínicos, num ambiente informal. Poderemos dizer que, em Portugal, a comunidade médica já se encontra habituada à partilha de saberes e experiências? E que vantagens proporciona este intercâmbio?

JG: É aqui que o paradigma da medicina se encontra: na discussão dos casos clínicos. A Medicina tornou-se melhor, muito melhor com aplicação do método científico através de estudos, ensaios e registos. Mas, na verdade, a sua humanização entre pares (médicos) só encontra lugar quando em grupo conseguem discutir e promover os conceitos de cada um perante um caso clínico um objetivo em comum, a resolução diagnóstica e terapêutica. Os casos desafiantes, raros, e complexos despertam sempre grande interesse nas reuniões médicas. Promove-se a formação de todos e ficamos também do ponto de vista pessoal a conhecer quem muitas vezes apenas se conhece por telefone, email ou apenas por referencia. Os médicos precisam de se conhecer pessoalmente e discutir as ideias e os casos em conjunto para melhorar a qualidade e a performance da medicina.

Em Portugal, esta cultura sempre existiu e penso que está bem ativa, embora existam áreas e especialidades com mais dificuldade neste âmbito. A Reunião UCARDIO, patrocina e fomenta fortemente esta partilha entre todos.

P: Hoje em dia, acredita que a população portuguesa se encontra melhor sensibilizada para os riscos subjacentes às doenças cardíacas? E qual o papel que o profissional de Medicina Geral e Familiar assume neste contexto?

JG: Apesar das fortes campanhas de prevenção que existem, divulgadas pela comunicação social e pelo mundo digital, continuamos muito aquém do desejado na formação de cada um de nós, individualmente e como sociedade, para alterar os nossos comportamentos de forma a reduzir ao máximo, o impacto das doenças cardiovasculares na qualidade de vida e limitar a mortalidade precoce que estas motivam.

O trabalho em casa pelos pais e famílias e nas Escolas é fundamental para conseguir melhorar estes conceitos. É nas crianças e nos mais jovens que devemos apostar para um futuro melhor.

Os Médicos de MGF são neste ponto um elemento crucial na divulgação, educação e promoção das medidas de prevenção das doenças em geral e dos riscos cardiovasculares em particular. São os médicos que estão mais perto e em constante contacto com a população. A sua formação específica e estratégia do plano nacional de saúde, dá-lhes o principal papel neste cenário.

P: Por fim, que expectativas se reservam para a IV Reunião Clínica, em termos de adesão da comunidade médica? E que mensagem gostaria de partilhar junto de todos os convidados e do público que marcará presença no evento?

JG: Esperamos que seja uma Reunião em que todos se sintam confortáveis com o ambiente e temas que serão debatidos. Elevámos a fasquia comparativamente à edição anterior e contamos com maior adesão à iniciativa. Incorporamos mais conteúdos e diferenciação para grupos específicos de profissionais através dos Cursos que englobam a Reunião deste ano. O programa foi construído com foco na atualidade contrapondo temas que são pertinentes e que não são alvo frequente de debate. Tentamos ser o mais abrangentes sem condicionar cada uma das especialidades a quem se dirige a Reunião. A principal mensagem é que venham até nós. Fora dos grandes centros também se pode conseguir fazer boas Reuniões Médicas com qualidade. Desejamos que o MAPA nacional conte connosco para os próximos anos neste sentido.

Fonte: perspetivas.pt

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